quinta-feira, 30 de maio de 2024

Ninguém quer um pra chamar de seu

Ter um transtorno de personalidade é sobreviver diariamente e matar alguns leões por dia. As coisas podem melhorar quando o indivíduo tem uma consciência do que se passa e deseja mudar sua realidade. Mas custa muito, muito mesmo e nem todo mundo tá disposto.

Se reeducar para agir de forma melhor, estabelecer hábitos saudáveis, tomar as medicações da forma correta, mas a parte mais complicado e que ninguém fala são as pessoas que se envolvem nesse processo.

Quando se trata de um border, muitos vão desejar, mas ninguém quer um pra chamar de seu.

Eles são aquelas pessoas que foram treinados pra te agradar e sabem exatamente como fazer pra você se sentir a pessoa mais especial do mundo. Ele vai te elogiar, vai te engrandecer, vai te apoiar e cuidar de ti. Mas ninguém tá preparado pra cuidar dele quando ele perde o controle emocional e fica agressivo como um mecanismo de defesa pessoal.

Eles vão aprender tudo sobre você, te observar em cada detalhe, saber de meio mundo de coisas que você gosta. Mas ninguém tá preparado pra lidar com a chantagem emocional de um quando ele não consegue o que quer e se sente desamparado, odiado, esquecido.

Ele vai te fazer viver intensamente, passar por aventuras, situações inusitadas e de muita risada. Mas ninguém quer a intensidade dele no seu momento de mais profunda tristeza, onde os pensamentos de viver grandes emoções dão espaço para a finitude da vida.

Ele soa presunçoso nos momentos de boa auto estima. Mas se torna insuportável quando ela tá em baixa, capaz de se dar os piores títulos possíveis e falar coisas absurdas pela sua distorção de auto imagem.

Parecem muito doces, mas podem ser profundamente cruéis e a literatura médica os rótula por instáveis em quase tudo, inclusive e principalmente nas relações. 

Podem ser pessoas maravilhosas e completamente entregues nas relações. Mas a verdade é que ninguém quer um border pra chamar de seu. É duro. É pesado. É triste.

É difícil ter medo de ser abandonado e a maioria deles optam pelo ímpeto de abandonar primeiro. Mas na real, quando são pessoas reais, o abandono é inevitável.

A quem recorrer? Por quem ser acolhido? Profissionais? Terapeutas? E quanto às outras relações interpessoais? 

Procura-se respostas.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

CPF inválido

Nome: Fulaninhe da Silva
Matrícula: Xxxxx xx xxxxxx xxxx x xxxx
Sexo: pessoa
Cor: humana
Estado civil: solidão 
Idade: tempo suficiente para estar cansada
Naturalidade: planeta terra
RG: agora só números inutilizáveis
Filiação: pais ricos e bem sucedidos; ou mãe solteira; ou pai viúvo; ou avós; órfão; ou pais narcisista; ou pais adotivos [...]
Residência: bairro nobre da cidade? Favela? Zona rural? Palafita? Barraco? Agora em residencial de outras almas eternas.
Data e horário de falecimento: dia em que o cansaço não cedeu espaço para escolhas, num horário em que ninguém poderia impedir.
Causa da morte: parentes e amigos afirmam ser desconhecida. Ou conhecida por tempo demais pra alguém ter feito alguma coisa, mas não tiveram tempo.
Sepultamento: preservação do corpo que era templo do espírito santo? Ou distribuído aquilo que ainda se pode aproveitar para quem anda precisando? Ou transformado em pó antes que o corpo escolha o fazer?
Observações:
O óbito não foi uma causa, mas uma consequência.

Consequência do cansaço. Falta de esperança ou falta de ânimo? Falta de emprego, falta de dinheiro, falta de companhia, falta de tempo, falta de descanso, falta de comida, falta de sobriedade, falta de amor... E que falta a falta faz! Um buraco no peito? Um vazio? Uma angústia constante ou inconstante? Muitos altos ou muitos baixos?

Familiares e amigos ficam. Fica a saudade eterna ou fica a culpa eterna?

O abraço que não recebeu. A escuta ativa que não conseguiu. A consulta médica que não obteve. A medicação que não surtiu efeito ou que se quer fez parte disso tudo. A terapia que não aconteceu. O alívio que não sucedeu.

No fim, ninguém entendeu. Assim como ninguém entendia. Bem como talvez nunca entendam.

Talvez o fim fosse por essa razão. 

Causa da morte: voluntária.