segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Na minha época eu cuidava de tudo sozinha!

          A mesma geração de mulheres que abre a boca pra dizer que "sempre cuidou dos filhos e da casa sozinha", querendo dizer com isso que não tinha rede de apoio, é a geração que geralmente abria mão de uma jornada de trabalho de sucesso fora de casa e que no fim do dia, terminava com bastante cansaço e já pensando no trabalho do dia seguinte, com uma condição de saúde mental insalubre pela falta de descanso reparador e de cuidado consigo mesma.
          É a geração que colocava a televisão pra filho menor de dois anos se distrair pra poder dar conta dos afazeres domésticos, gesto comprovado cientificamente fazer muito mal pro desenvolvimento cognitivo da criança, gerando adultos com distúrbio de aprendizagem ou problemas de vista que nem sabem que tem, não por maldade, mas por ignorância. 
          A mesma geração que usava artifícios como andador para fazer a criança percorrer os espaços da casa em "segurança" e "andar mais rápido". O mesmo andador que hoje, comprovado cientificamente fazer mal pro desenvolvimento motor da criança, atrapalhando o desenvolvimento do sistema vestibular (responsável pelo equilíbrio) e da coordenação motora, criança que muitas vezes não sabia nem cair e que viviam com edemas na testa, gerando adultos que, se tiveram sorte, não possuem problemas com musculatura, coluna ou algo do tipo. O mesmo andador que não é recomendado pela Anvisa, pois já houveram diversos casos que mostram que as vantagens são muito menores comparadas aos danos que já causaram pra muitos bebês.
          A mesma geração que não sabia que o bebê podia chorar por necessidade de colo, condição de qualquer mamífero novo (não só o humano), o mesmo colo que, comprovado cientificamente,  cria vínculo maior com seus cuidadores primários e faz com que o bebê se sinta mais seguro e amado, gerando um adulto que é emocionalmente mais saudável, autoconfiante e menos ansioso. E que o contato pele a pele auxilia no desenvolvimento do sistema nervoso central, responsável por receber e processar informações de estímulos recebidos no corpo. Não, a criança não tá fazendo manha, ela é naturalmente mais carente e se quer entende que tá no mundo, quem dirá ter essa malícia. Bebê não sabe nem o que é bondade e maldade, ele aprende com o adulto.
          A mesma geração que não sabe regular suas emoções, que na hora da raiva grita, agride com palavras e as vezes até fisicamente o outro, e que não entende que o adulto em questão é ela e que a criança vai fazer birra SIM. Que o "excesso" de colo não tornou ela mimada, ela simplesmente ainda não sabe lidar com a própria frustração de não ter aquilo e que ela quer e que não sabe regular suas emoções, não sabe como expressar o que sente e nem dar nome a esses sentimentos. Ela aprende com o adulto.
          A mesma geração que na hora da birra, usava o "pulso firme" pra fazer a criança entender "quem manda", sem saber que a criança se molda conforme agrada o seu cuidador primário, futuras crianças mais suscetíveis a abusadores e gerando adultos que as vezes não sabem bem o que querem, que estão sempre preocupados com o que o outro vai pensar, preocupados em agradar o outro e se negligenciando, causando problemas emocionais as vezes irreparáveis ou extremamente danosos à própria vida, reféns de pessoas narcisistas, que aceitam violências contra si e no final ainda acham que "merecem".
          A mesma geração que não sabia que o choro inconsolável do bebê não era só fome, mas também: gases, cólica, excesso de estímulos visuais ou auditivos (bebês têm a audição e a visão mais sensível), sono, MUITO SONO, insegurança, medo e etc. Chorar é a única forma que ele tem de se comunicar, pois ainda não sabe usar a linguagem verbal ou gestual. Ele sequer sabe que pode movimentar o corpo conforme ele deseja e nos primeiros dias, não tomou nem consciência de que ele tem um corpo e não sabe nem que é um indivíduo.
          A mesma geração que nunca ouviu falar na "angústia da separação", momento em que o bebê toma consciência de que ele e a mãe não são uma coisa só e que quando não consegue ver a mãe, acha que ela foi embora e não vai mais voltar. A insegurança de saber que a mãe, sua primeira casa, seu primeiro aconchego, seu porto seguro, não sumiu porque morreu ou o deixou abandonado, mas que teve que se ausentar por alguns minutos ou horas e logo mais estará de volta. Ele sente uma tristeza profunda e quando toma consciência que a mãe finalmente voltou e está ali pra ele, ele pode chorar por ser uma forma dele desabafar toda aquela saudade que ele estava, não porque "só ficava no braço da mãe", mas porque sente o amor dela e não sabe que não precisa do toque pra que aquele amor seja sempre presente.
          A mesma geração que dava mingauzinho pro bebê dormir a noite toda. O mesmo mingau que possui uma única textura e um único sabor, pobre em nutrientes e uma bomba de açúcar, gerando crianças que logo mais vão dar trabalho pra comer alimentos saudáveis e de diferentes consistência e sabor, criando um paladar mais suscetível ao que é doce (semelhante ao sabor do leite materno, único alimento que ele conhecia até então) e rico em carboidratos. A criança que futuramente terá problemas nutricionais, problemas de glicemia, obesidade e suscetíveis a diabetes, carentes de vitaminas necessárias pro corpo e seu bom funcionamento.
          A mesma geração que dava um suquinho pro bebê, sem saber que é mais vantajoso oferecer a própria fruta por preservar a quantidade de nutrientes que ela possui, sem causar futuramente um desequilíbrio nas taxas de glicemia da criança que se tornará.
          A mesma geração que trocava uma deliciosa laranja ou algumas acerolas por vitamina C efervescente industrial, na intenção e ingenuidade de acreditar que esse feito ajudaria na restauração da imunidade da criança.
          A mesma geração que não teve aulas de biologia na escola, disciplina fundamental para conhecer como a vida (não só a humana) na terra é fascinante, não conhecendo muuuuuito do que o próprio corpo, para além da carcaça aparente, não entendendo sobre cuidados necessário a ou não contra os microorganismos existentes. As vidas que a gente não consegue ver a olho nu, mas que estão ali, as diferentes relações que existem entre essas "microvidas" e as macro e os benefícios e malefícios que possuem essas relações. A mesma geração que acreditava que as roupas e fraldas do bebê seriam livres desses microrganismos se elas fossem passadas a ferro e que assim, o organismo do bebê estaria mais protegido, sem saber que diariamente convivemos com inúmeros desses microrganismos presentes no corpo e que a passagem de muitos deles por nós é necessária pra que possamos ter anticorpos e uma imunidade maior, nos preservando de adoecer nos próximos contatos.
          A mesma geração que não tinha conhecimento de tudo isso que foi aprendido e apreendido pela ciência, importantes para o desenvolvimento de um bebê e que criar um não é só manter ele vivo e alimentado, mas muito, beeem muito mais que isso e que todas as nossas atitudes, formas de lidar com ele e o que ensinamos nos dois primeiros anos de vida é fundamental pro adulto que ele vai se tornar.
          A mesma geração que não sabia a diferença de ser pai e ser rede de apoio e que ABSOLUTAMENTE não são a mesma coisa! Que ser pai não é só ser provedor, mas muito mais que isso, e que a única coisa que a mãe faz que ele não pode fazer (se o bebê só mama) ATÉ O SEXTO MÊS, é alimenta-lo. Que a jornada de trabalho, embora ponha comida na mesa e uma vida mais "confortável", com contas pagas, não o isenta de também ser responsável pelo cuidado e desenvolvimento da criança e que o cansaço dele não é mais importante que o dela.
          Não, você não sabe como criar o filho da outra. Todos os longos anos de experiência que você teve, até com mais de um filho, pode nem servir pra ela em quase nada. Você não possui todo esse conhecimento que acha, afinal, a vida é um eterno aprendizado e todos nós, independente da idade, ainda estamos aprendendo e você não é menos nem mais por isso.
          Ninguém sabe melhor do que ela mesma o que é melhor pro filho dela e principalmente pra ELA, que também é um indivíduo, também precisa de saúde, do outro e que, para além de mãe, também é mulher e pode possuir outros papéis na sociedade que não só esse. Que ainda tem necessidades, desejos, sonhos e que precisa dessa pausa especialmente no primeiro momento da vida de sua cria pra se adaptar e fornecer tudo o que ele precisa, com o mínimo de traumas possíveis para aquele, mas também pra ELA.
         A "nova mãe" não nasce com o bebê, ela já começa a se tornar junto com a vida que está sendo gerada em seu ventre e que já precisa de cuidados desde a concepção e não é você quem decide quando ela finalmente se tornou uma mãe ou vai validar o quão mãe ela é.
          Que ser uma mulher que também trabalha não faz dela "menos mãe" põe causa disso.
          Não romantize a vida de sobrecarga que você teve pra dizer que és mais mãe e tem mais valor que a outra, que decidiu ser para além disso.
          A mesma geração que AS VEZES, não entendeu que ser mãe é mais aprender que ensinar; acolher e ser acolhida; amar e ser amada; ser respeitada e respeitar.
          E que tudo que a "nova mãe" tem adquirido de conhecimento, não serve pra te fazer mais culpada pelos erros que você não sabia que cometia, mas pra cuidar com muito mais amor e zelo pela sua cria que é DELA.
          Quem nos ensinou que tínhamos tanto que nos odiar mais que nos ajudar? Quem nos ensinou a corrida pelo ranking no quão na verdade, todas nós devíamos ser vencedoras? Quem nos ensinou que o saber se cristalizou? Quem nos ensinou que a "nova mãe" não sabe de nada porque não viveu? Quem nos ensinou que ninguém melhor que as mulheres para entender outras mulheres?
          Abaixo à rivalidade feminina em todas as suas instâncias! Que o ódio à cisão entre elas substitua o ódio ENTRE ELAS!
          Minha prece de mãe é que as mulheres se amem bem mais que isso...